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PSICOTERAPIA

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Uma Reflexão sobre as Contribuições das Tradições Orientais para a Psicologia
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UMA REFLEXÃO SOBRE AS CONTRIBUIÇÕES
DAS TRADIÇÕES ORIENTAIS PARA A PSICOLOGIA

Há um crescente interesse, em todo o mundo, pelo pensamento oriental. O ocidente está se abrindo cada vez mais para as práticas de meditação, de yoga, de tai-chi-chuan, de acupuntura e outras atividades cujas raízes estão presentes no Tibet, na Índia e na China.

Esse acolhimento não se resume somente às práticas, aos exercícios e às técnicas orientais, mas se estende aos campos da filosofia e da metafísica. Muitos estão estudando os textos sagrados do Hinduísmo, do Taoísmo, mas, sem dúvida alguma, a tradição com mais adeptos no ocidente atualmente é a do Budismo, tanto Tibetano quanto Zen.

Todas essas tradições concordam que o Homem é um ser multidimensional, um sistema corpo-mente-espírito, que juntos, formam uma totalidade integrada, não dissecada, dividida ou fragmentada. O Homem com potenciais desconhecidos, que serão descobertos somente através do auto-conhecimento e das práticas espirituais que equilibram essa "trindade".

Esses potenciais e essas capacidades máximas que todo o ser humano guarda dentro de si, segundo Sutich(1968), não foram explorados ou estudados pela psicologia ocidental. As experiências espirituais, por exemplo, foram vistas por muitos psicólogos como um fenômeno de desintegração da personalidade e consequentemente de natureza psicótica.

Segundo Fadiman(1986), os psicólogos ocidentais discutiram o crescimento psicológico em termos de desenvolvimento da autonomia, da autodeterminação, da autoatualização e libertação dos processos neuróticos, não havendo uma preocupação quanto à expansão da fronteiras do self .

Muitas são as descrições de experiências em que há uma extensão da identidade para além da individualidade e da personalidade. Essa é apenas uma parte da nossa natureza psicológica (Fadiman,1986).

A expansão da consciência e o encontro com as dimensões mais profundas do nosso ser, possibilitam, segundo as tradições orientais (e também algumas das tradições ocidentais), um estado de paz, de tranqüilidade interior, de comunhão com a natureza e com o universo. Um maravilhamento inunda a alma daquele que consegue atingir a sua essência de natureza espiritual.

Dentro do Budismo, existe toda uma psicologia que se fundamenta no controle e na disciplina da mente, visando despertar o estado de iluminação (estado de Buda). A tarefa do despertar visa a progressiva desidentificação do conteúdo mental em geral e dos pensamentos em particular (Walsh,1980).

Com a mente disciplinada, calma e tranqüila, há a experiência da consciência pura, livre de qualquer identificação. Nesse estado, elimina-se qualquer forma de separatividade (Maya ou ilusão), que segundo o Budismo é a causa do nosso sofrimento.

Segundo Walsh, os conteúdos e processos mentais resultam do condicionamento e a identificação com esses conteúdos, gera a experiência de um "eu" controlado pelo condicionamento. Uma vez transcendida a identificação, há uma conseqüente eliminação do condicionamento.

Nas profundezas da psique humana, quando todas as identificações limitadoras são abandonadas, quando a percepção não está mais limitada à identidade, o que se experimenta é a transcendência das fronteiras do tempo e do espaço e uma experiência de unidade com todo o universo. Esse é o estado que alguns místicos vivenciaram, uma experiência de profunda paz, bem-estar psicológico e comunhão com tudo e com todos. A experiência mística acontece quando há a expansão da consciência para além dos domínios do ego, o que torna possível o exercício contínuo da compaixão.

Nas tradições orientais encontramos um modelo espectral da psique. Isso quer dizer que, para elas, a psique possui diferentes níveis ou camadas. Na psicologia vedantina, a psique tem 5 níveis básicos, sendo que o ego é o primeiro nível e o corpo espiritual (o corpo de luz), o último. No Budismo Mahayana, a psique tem 8 camadas principais, sendo as 5 primeiras correspondentes à consciência dos 5 sentidos e as 3 últimas correspondentes ao intelecto, à vontade e ao inconsciente coletivo (alaya-vijnana), reino do arquétipos ou bijas (Wilber,1977).

A psicologia tibetana, segundo Wilber, também coloca a mente como tendo 5 invólucros ou camadas, que juntas, compõem o espectro.

O oriente explorou, sem dúvida alguma, os caminhos que levam o homem ao contato com as camadas mais profundas da mente, aquelas espirituais e transcendentais. Mas não investigou sistematicamente as patologias que poderiam ocorrer no nível do ego. Por outro lado, a psicologia ocidental concentrou-se nas manifestações do ego e da personalidade, assim como suas patologias, mas não deu devida importância à dimensão da espiritualidade.

Talvez essa complementaridade explique, em parte, o porquê da procura, nos dias de hoje, do pensamento e das técnicas terapêuticas orientais.

Vale lembrar que a saúde mental para as tradições orientais é determinada pelos fatores que formam os estados mentais de alguém de momento a momento. Na perspectiva budista, o distúrbio mental, segundo estudo realizado por Goleman (1996), é a ausência de fatores mentais positivos e a presença de fatores mentais negativos. O grande caminho para a saúde mental é a prática de meditação, pois ela transforma os fatores mentais negativos em fatores mentais positivos. Existem técnicas diferentes para diferentes personalidades assim como para diferentes problemas.

Vários estudos na área de fisiologia cerebral estão mostrando que a meditação diminui os padrões de EEG no cérebro, aumentando a sincronização de suas ondas (ver Wallace,1970). Bennet e Trinder (1977), sugerem em seus estudos que meditadores podem apresentar um aumento da capacidade de habilidades situadas no hemisfério direito , como por exemplo, a de lembrar e discriminar tons musicais.

Uma questão prática vem agora à tona: que contribuições à pedagogia e à psicologia podem dar as tradições do oriente, principalmente no que diz respeito aos estados de consciência que estão além do estado de vigília? As respostas virão, sem dúvida alguma, com o avanço das pesquisas. Mas podemos, desde já, ter um vislumbre das possíveis aplicações das técnicas de meditação no campo clínico e pedagógico.

Já existe um crescente interesse no estudo das capacidades humanas baseadas em outros intervalos de freqüência das ondas cerebrais. Trabalhamos na maior parte do tempo na freqüência beta, relacionada ao estado de atenção aos estímulos externos, ao raciocínio, ao cálculo e ao estado de alerta. Mas que capacidades mentais estão associadas aos estados alfa, theta e delta de funcionamento cerebral, induzidos pelas técnicas de meditação?

Roberts (1980), coloca que pode haver inúmeras capacidades humanas baseadas primariamente em outros intervalos de freqüências cerebrais, ou seja, em outros estados de consciência. Segundo ele, também pode haver formas de aprendizagem que são mais eficazes quando o cérebro opera nesses níveis não ordinários, com potenciais educacionais tão grandes quanto os de nível beta, e quem sabe, até maiores.

No campo clínico, as técnicas de meditação e a entrada em estados expandidos de consciência, podem ajudar o paciente a lidar com seu material emocional sem se identificar com eles, enxergando as suas dificuldades de um ponto de vista mais amplo e com maior clareza mental.

Do ponto de vista budista, a razão para desenvolvermos a concentração é acalmar a mente o suficiente para permitir a investigação das qualidades do eu. O uso de técnicas meditativas, com o intuito de aprimorar as capacidades de atenção e concentração, pode ser muito útil no trabalho do psicólogo e do educador.

Epstein (1996), considera a importância da integração entre os dois sistemas de pensamento: o oriental e o ocidental. Ele propõe uma abordagem clínica que concilia meditação e psicoterapia. Os terapeutas ocidentais, segundo Epstein, identificaram uma abundante fonte de angústia neurótica sem terem desenvolvido um tratamento eficaz para ela. A psicoterapia é capaz de apontar algumas das carências da infância que contribuíram para o desenvolvimento de uma neurose e ajudar a diminuir a intensidade com que os conflitos eróticos e agressivos atrapalham a busca pela satisfação do eu, mas tem sido incapaz de conceder a liberdade a partir do anseio narcisista.

Assim sendo, muitas podem ser as contribuições das tradições orientais. Elas possuem técnicas que ajudam a pessoa a equilibrar a sua mente, a fazer uma auto-análise e treinamento mental, além de expandir a consciência para além das fronteiras do ego, facilitando a saída de uma postura narcísica e egoísta diante da vida.

 

Referências Bibliográficas

BENNET, J. E. & TRINDER, J. Hemispheric laterality and cognitive style associated with transcendental meditation. Psychophysiology, 14: 293-296, 1977.

EPSTEIN, M. Pensamentos sem Pensador. Rio de Janeiro. Ed. Gryphus, 1996.

FADIMAN, J. e FRAGER, R. Teorias da Personalidade. São Paulo. Harbra, 1986.

GOLEMAN, D. A Mente Meditativa. São Paulo. Ed. Ática, 1996.

ROBERTS, T. B. Educação e Relações Transpessoais: Roteiro de Pesquisa. In Roger Walsh (ed.). Além do Ego. São Paulo. Pensamento, 1980.

SUTICH, A. Transpersonal Psychology: an emerging force. Journal Humanistic Psychology, 1, 77-78, 1968.

WALLACE, R. K. Physiological effects of Transcendental Meditation. Science, 167 (3926): 1751-1754, 1970.

WALSH, R. N. E VAUGHAN, F.V. Além do Ego. São Paulo. Ed. Cultrix, 1980.

WILBER, K. O Espectro da Consciência. São Paulo. Ed. Cultrix, 1977.

Dr. Antônio Ricardo Nahas
Psicoterapeuta