|
ANÁLISE
PSICO-ORGÂNICA
Conferência
de Anne Fraisse traduzida por Silvana Sacharny em 27.7.98
Apresentação
Estou aqui hoje para apresentar para vocês um método de psicoterapia
denominado Análise Psico-Orgânica, fundada há mais ou menos
25 anos por Baul Boyesen, que esteve aqui em novembro de 1997
para apresentar essa abordagem. Ele é o autor de um livro
chamado "Para quem desperto de manhã ?". Há 25 anos
trabalhamos juntos, ele, sua mulher Joelle Boyesen, e outros
colegas. Fundamos a Escola Frandesa de Análise Psico-Orgânica
que tem por finalidade formar psicoterapeutas.
Análise Psico-Orgânica Um método europeu
Esta abordagem faz parte dos 17 métodos europeus que estão
em curso de reconhecimento para obtenção do Certificado Europeu
de Psicoterapia (CEP). A EAP, Associação européia de Psicoterapia,
agrupa atualmente 30 países e representa 160.000 profissionais.
Esta associação criou este Certificado. Meu marido, aqui presente,
Dr. Michel Meignant fará uma breve intervenção ao final da
minha conferência a fim de dar-lhes algumas informações.
Uma abordagem Unicista
A abordagem unicista do indivíduo, a abordagem global, a abordagem
holística, é ao mesmo complexa e paradoxal. Ela não é fácil.
Muitas vezes, o profissional gostaria de possuir técnicas,
receitas, certezas, mas não é o caso. Temos, no entanto, sólidos
conceitos, teorias precisas, ferramentas eficazes que evoluem
junto com a própria imagem do homem.
A abordagem do homem enquanto unidade funcional, implica antes
de tudo numa ética (lembrando ao profissional) de que o paciente
não está ali para conferir as teorias, mas que nós estamos
ali a serviço de nossos clientes e é através da relação terapêutica
que nós confirmamos, afirmamos, elaboramos, descobrimos teorias.
Dito de outra maneira, o psicoterapeuta aprende permanentemente
com o paciente, o que o coloca numa posição de humildade e
de criatividade.
Histórico - IDENTIDADE
A Análise Psico-Orgânica, teoria e método elaborados por Paul
Boyesen, inscreve-se no campo das terapias com mediação corporal
- este método alia intimamente o trabalho corporal ao analítico.
Como ilustração, poderíamos dizer que o verbo atua no corpo,
que ele o modela. Por exemplo, quando um pensamento é inibido,
ele se cristaliza, deixando traços que são ao mesmo tempo
psíquicos, como a resignação, ou ao contrário, atitudes agressivas,
e deixando traços físicos como estases, tensões, somatizações.
No outro extremo, um toque se propaga no corpo, provocando
emoções, imagens, palavras. Tocando o corpo de uma pessoa,
não tocamos apenas sua pele ou seus músculos, mas toda a pessoa,
corpo-alma-espírito. O analista psico-orgânico tenta portanto
fazer ligações entre as abordagens analíticas e o corpo, ligações
entre a verbalização, as imagens, o movimento da energia no
corpo, ligações entre a sensação, o sentimento e o sentido.
As Heranças - DA PARTE PSICANALITICA
A Análise Psico-Orgânica trabalha com o inconsciente. O profissionao
escuta, acolhe, deixa emergir o inconsciente e trabalha com
ele, com o seu e com o do outro. Para Paul Boyesen, o inconsciente
é situacional, isto é, o diálogo consciente - inconsciente
se modifica, se mobiliza, em função das situações de nossa
vida cotidiana.
Heranças também na medida em que consideramos a transferência
e a contra-transferência como motor da terapia. Introduzimos
a noção de transferência orgânica e de contra-transferência
orgânica.
Somos mais marcados pela abordagem Freudiana, Junguiana, Lacaniana?
Isso depende dos percursos analíticos de cada um e de sua
sensibilidade. De minha parte, fiz uma análise Junguiana com
Elie Humbert que por sua vez foi analisado por Carl Gustav
Jung com quem eu divido uma parte do livro "Fonte de
Fogo". Acho que o pensamento de Paul Bouesen tem pontos
de encontro com o pensamento de Jung e vou citar dois exemplos:
por um lado, o círculo psico-orgânico, referência de base
de nosso trabalho, é uma abordagem sintética do ser, um pensamento
circular que lembra a importância do círculo para Jung, a
mandala, o círculo como uma maneira de representação do self.
por outro lado, o PIT do trabalho sobre o impulso primário
apoia-se no confronto entre a mãe real e a mãe simbólica,
o pai real e o pai simbólico que tem relação com os arquétipos
e as imagens arquetipais.
A Análise Psico-Orgânica é herdeira de Reich e de Gerda Boyesen
- DA PARTE CORPORAL
Reich foi de fato o primeiro a mostrar que podíamos alcançar
o inconsciente através do corpo. Ele utilizou o conceito de
couraça caracterial para descrever como os músculos guardam
a memória dos acontecimentos passados e como, através destes,
podemos atuar sobre a neurose.
Gerda Boyesen é a mãe de Paul Boyesen. Ele tem hoje 75 anos
e eu também fui formada por ela. Ela fundou a Psicologai Biodinâmica
e durante mais de 10 anos seus filhos Ebba, Mona e Paul Boyesen
participaram do desenvolvimento da Psicologia Biodinâmica.
Gerda Boyesen é autora do livro "Entre Psiquê e Soma"
que teve muito sucesso.
É normal, eu diria até indispensável, que um filho se separe
de sua mãe, faz parte da construção edipiana. Paul o fez criando
seu próprio pensamento, seu próprio movimento, não contra
sua mãe, mas para si mesmo, além de si mesmo, e reconhece
os preciosos aportes da Psicologia Biodinâmica. Se Gerda Boyesen
se interessou particularmente à microregulação do corpo graças
à sua descoberta do psico-peristaltismo, Paul Boyesen interessou-se
mai particularmente à macroregulação. Se Gerda desenvolveu
mais a função da sensação pelo toque e pelas massagens, Paul
se perguntou se a sensação teria um sentido; ele desenvolveu
o trabalho com os sonhos, as imagens, as representações, e
a linguagem.
Herdeira com certeza, a Análise Psico-Orgânica deve um reconhecimento
a seus pais, Freud, Jung, Reich, Gerda Boyesen e a seu pai
fundador Paul Boyesen, mas ela também é original, criativa,
em permanente evolução.
Atuamente, na França, a revista Adire é publicada anualmente
e os últimos temas forma O casal, A infância dividida, O homem,
Masculinidade Paternidade, Ética, Amor e Lei.
Na Alemanha, uma revista equivalente é publicada com o nome
de "Dialog". Por outro lado, a escola francesa de
Análise Psico-Orgânica publicou 5 manuais de ensino para os
estudantes de psicoterapia. Isso demonstra uma riqueza e uma
certa efervescência intelectual.
Prática Clínica
Após um breve histórico, eu vou dividir com vocês nossa prática
clínica e para isso vou me utilizar de casos clínicos. Partimos
das seguintes questões: com que pessoa, em que momento do
processo, por que e como as diversas linguagens terapêuticas
vão se desenvolver, linguagem do corpo, das imagens, da energia
ou das palavras?
Prática Clínica O trabalho corporal abordagem da sensação
Para ilustrar a abordagem corporal, vou tomar 3 exemplos,
um em início de terapia, outro durante o processo e o terceiro
no final do persurso terapêutico.
No início de psicoterapia: Maria
Maria é uma mulher de 50 anos que veio de uma demanda de terapia
por um mal geral e uma dificuldade em viver. As primeiras
sessões se passaram face a face e Maria não parava de falar.
Eu não conseguia colocar nem uma palavra. Eu tinha a impressão
de que ela derramava a cada sessão sua dificuldade em viver,
como uma garrafa que se esvazia; esta se enchia durante a
semana e novamente ela a derramava. Ela tinha uma tendência
histérica acentuada e sua spalavras flutuavam, não tinham
peso. Eu achava que seria preferível trabalhar sobre a forma
da garrafa e não sobre o conteúdo. Eu lhe propus deitar-se
e fechar os olhos para interiorizar, o que lhe foi impossível,
tamanha a sua angústia. Eu lhe propus um trabalho respeitoso
e leve, a partir de sua respiração e do relaxamento, e a cada
sessão, durante os primeiros quinze minutos, como um ritual,
Maria pode começar a relaxar, confiar em seu corpo, acolher
sua respiraçào. Sua necessidade de falra era tão grande que
ela utilizava o resto da sessão para isso, mas seu ritmo diminuiu,
suas palavras ganharam peso e eu podia pará-la numa frase
e questionar os entido do que ela havia cabado de dizer. Eis
um exemplo de introdução de relaxamento e da respiração no
início de um processo de psicoterapia.
Durante a psicoterapia: Liana
Liana é uma jovem da Martinica, uma psicóloga que veio fazer
seu doutorado em Paris sobre a doença mental dos habitantes
das Antilhas em função da aculturaçào. Seus estudos, suas
referências eram antes de tudo, Freudianas, mas ela escolheu
conscientemente fazer um percurso com um terapeuta psico corporal.
Após algumas semanas, face a face, Liane deitou-se trabahando
sobre seu passado e trazendo seus sonhos. Váriasd vezes convidei-a
a tirar seus sapatos, sem sucesso, e eu aceitava sua recusa
me perguntando que sentido teria isso para ela. Durante o
primeiro ano, eu não tive acesso a seu corpo, nós nos mantínhamos
distantes. E durante um estágio de verão em grupo que emergiu
para ela a linguagem corporal, principalmente num dia em que
ela se posicionou no centro de um círculo de 20 participantes
e começou a dançar descalça; num primeiro tempo, foi uma danca
de enraizamento, próxima da terra, e podia-se sentir a África.
Depois ela segurou os tornozelos, mostrpu um corpo em sofrimento,
um olhar cheio de ódio e começou a dançar a dança dos escravos,
arrastando os pés. Nós estávamos todos em silêncio, transtornados
pelo que ela estava vivendo. Ela parou sua dança diante de
mim, eu, sua psicoterapeuta branca, ela a paciente mestiça,
descendente de escravos vindos da África, e me ofendeu. Eu
recebi essa transferência negativa e mantive o contato com
ela pelo olhar. Então sua dança se transformou e tornou-se
leve, giratória. Nesse momento, minha intuição era a de que
ou ela encontraria animais de poder, ou ela encontraria o
totem de seus ancestrais africanos. No momento de seu feed-back,
ela me confirmou que havia encontrado o totem de seu clã do
lado paterno e que havia ficado completamente transtornada.
Compreendi então porque ela havia conservado seus sapatos
durante todo o primeiro ano de sua psicoterapia, e o quanto
tinha sido essencial que eu a respeitasse. teria sido inconcebível
que, por exemplo, eu lhe tocasse os pés e mais ainda que eu
lhe fizesse massagens nos pés. Seus sapatos-proteções diziam:
nos meus pés, nas minhas raízes, encontra-se a história de
meu povo, e eu lhe falarei nisso quando tiver bastante confiança,
no momento certo. Alguns anos depois, eu encontrei Liana em
Quebec, num congresso de psicoterapeutas. Ela havia se casado
com um médico branco, eles haviam se mudado para o Canadá
e tinham dois adoráveis filhos mestiços.
Em fim de percurso: Dany
Dany é uma psicoterapeuta experiente, com um duplo persurso,
analítico e corporal, em grupo e individual. Ela fez um pedido
pouco claro para fazer um percurso comigo: "falta alguma
coisa, eu não sei o que" ela me dizia. Se eu devesse
resumir seu percurso comigo, eu empregaria as palavras da
regressão ao renascimento. Ela tinha uma transferência positiva
o que lhe permitiu regredir, soltar-se. A cada sessão, ela
vinha aconchegar-se a mim, e eu a segurava, continha, nutria.
Esse trabalho de holding seria reparador, quanto tempo iria
durar? Em silêncio, eu estava permanentemente atenta às minhas
sensações, à minha contra-transferência orgânica. Ora, num
certo momento eu senti que em vez de ser reconfortada, nutrida
por esse contágio ontológico, Dany escapava, seu corpo se
tornava leve como se não fosse mais habitado. Então eu decidi
falar-lhe, sendo sempre continente, o que podemos chamar um
tocar-falar ou unir a sensação e o sentido. Em consequência,
ela pode analisar sua experiência da seguinte maneira:
Quando ela se via no ventre da mãe, intra-útero, o contato
comigo era assegurador e reparador, e ela experimentou o não-tempo
e a gratuidade do amor. Depois ela foi além do nascimento
e perguntou-se sobre sua concepção com um C maiúsculo, sentiu
o não desejo de seus pais e teve vontade de morrer. O fato
de eu lhe falar, colocar as palavras, chamá-la por seu nome,
foi como uma chamada que dava um sentido; assim ela pode dizer
sim à sua concepção, sim à sua encarnação: "no início
er ao verbo e o verbo se fez carne, eu senti profundamente
em meu corpo o sentido dessa parábola bíblica", disse
Dany.
Acabo de dar 3 exemplos sobre a sensação, de trabalho a partir
do corpo, a partir do toque, da respiração, do movimento,
e agora eu passo para um outro nível, o das imagens e das
representações.
Prática Clínica As imagens e suas Representações
É importante trabalhar com as imagens. O perigo de uma análise
unicamente verbal seria o ressecamento por excesso de pensamento,
de logos, e é o perigo do lado do pai. Mas também existe perigo
em se trabalhar unicamente com os sonhos e as imagens , é
o perigo de afogamento na grande-mãe, no inconsciente. Um
processo terapêutico acolhe o que vem do corpo (a sensação),
o que vem da alma (o sentimento), e o que vem do espírito
(o sentido).
Uma luta contra o escuro: João
João é um homem jovem, de 24 anos, educador infantil. Ele
iniciou uma psicoterapia porque tem uma tendência à pedofilia,
o que significa que ele se sente atraído por crianças. Até
agora ele sublimou sua pulsões, mas ele está consciente do
perigo pessoal e jurídico que acarretaria uma passagem ao
ato e quer evitá-la a qualquer preço. Ele me conta a história
de sua infância, e verifica se ele não sofreu algum abuso
sexual, o que não é o caso. Então, depois dessa primeira fase
de terapia verbal em que a confiança e a transferência se
estabelecem, eu proponho que ele trabalhe mais com o inconsciente.
João não se lembrava de seus sonhos, então, quando ele estava
deitado e com os olhos fechados, eu o convidei a compartilhar
o que ele estava vendo. Durante 3 meses ele não tinha nenhuma
imagem: "eu vejo um escuro", dizia ele; ele se habituou
pouco a pouco com esse escuro, respirando nesse escuro. "Esse
escuro é alguma coisa" eu lhe disse " não é um nada",
mas ele estava colado, no indiferenciado, na noite. Um dia
isso se decolou e ele ficou transtornado por experimentar
andar através desse escuro, do um, de uma fusão mortífera,
ele acabava de passar para o dois, ele e o mundo. Finalmente
as imagens apareceram, junto com as lágrimas, quando ele pode
ver o menino que ele era. Assim, as lembranças, as situações,
as imagens do passado habitaram-no. Ele compreendeu que através
da criança exterior, ele procurava a criança interior que
ele havia perdido. Desenvolveu-se um tabalho de reparação,
de renarcisação, de diálogo com a criança interior através
de imagens, símbolos, depoisele começou a se lembrar de seus
sonhos e trazê-los à psicoterapia. Ele tinha prazer em dividi-los,
em analisá-los. E assim se restabeleceu o diálogo consciente
- inconsciente.
Da depressão à criação do Mundo: Mora
Esta professora era muito depressiva e várias vezes teve que
parar de ensinar. As licenças médicas e os remédios permitiam
que ela fosse se mantendo, mas por duas vezes ela teve que
ir para uma clínica especializada em sonoterapia. Ela se encontrava,
portanto, sob o efeito de medicamentos quando começou a psicoterapia
comigo. Em seguida, o sintoma se agravou, ela regrediu e tocou
aquilo que ela chamava de estado depressivo, perda de desejo,
do gosto de viver, desejo de morrer. Era preciso mergulhar
nisso, ir mais fundo, mas existiria um fundo que ela pudesse
atingir e, como um mergulhador que toca o fundo do mar, subir
? Sentindo que sus depressão se acentuava, eu propus vê-la
todas as manhãs de 7 às 7:30 antes de começar meu dia de trabalho.
Assim ela deveria se levantar a cada manhã e eu esperava que
essas sessões diárias bem curtas pudessem manter sua cabeça
fora d'água. Ela começou a desenhar e a trazer seus desenhos
para me falar deles nas sessões. No fim de uma semana, sua
produção foi de 30 desenhos que ela arrumou no tapete do meu
consultório. Qual não foi minha surpresa ao ver uma história
em quadrinhos representando a criação do Mundo. No início,
o indiferenciado, depois alguns desenhos aquáticos em tons
de azul, depois animais, e finalmente seres humanos. Mora
havia desenhado um casal de pais simbólicos, pessoas pobres,
pescadores vivendo numa cabana à beira mar. Assim ela aceitou
ser ela mesma filha de pescadores e eu fiz várias perguntas
sobre a queda, o pecado original, o mal, o sofrimento ...
Esta produção criativa de desenhos e o sentido que ela encontrou
neles evitou sua hospitalizaçào, mas isso não foi o suficiente
para que ela saísse de seu estado depressivo, e seu percurso
foi longo e requereu muita perseverança. No entanto, ela encontrou,
por um lado, o prazer em desenhar, de criar, e de outro, um
sentido.
Sonho, presente e jóia: Beatriz
Eu não via Beatriz há 4 anos. É uma estudante que terminou
sua formação na escola francesa de Análise Psico-Orgânica.
Reconhecemos suas capacidades e ela recebeu seu certificado.
Por onde andaria ela? Teria ela aberto um consultório, receberia
ela pacientes? Também muito feliz em me encontrar, ela me
contou o seguinte sonho: "um ano depois do final de minha
formação, uma noite eu sonhei que você chegava, que você estava
diante de mim e que você me dava um presente, uma jóia. Quando
eu acordei, esse sonho me habitava completamente e eu desenhei
a jóia. Em seguida, eu encomendei essa jóia a um joalheiro".
Beatriz me mostrou o magnífico pendente em forma de oito com
uma pedra que ela trazia no pescoço. "Para mim"
disse ela, "o oito é o signo do infinito e isso me lembra
a massagem de cruzamento que você nos ensinou". "Essa
jóia é magnífica, e presenteando-se com ela você se reconheceu
profundamente como psicoterapeuta". "Sim, disse
ela, eu abri um consultório em Lausanne etenho agora 15 pacientes."
Existem sonhos que se analisam, e outros que são para serem
vividos, e mudam nossa vida. Eu também fiz essa experiência
e eu divido alguns sonhos de ensinamento e de iniciação no
livro "Fonte de Fogo".
Prática Clínica À Procura do sentido e a importância da linguagem
Não há uma pessoa que faça uma demanda terapêutica que não
tenha questões existenciais como: de onde venho, quem sou
eu, qual é o meu caminho, o por que do sofrimento, o que é
o amor, o que é a vida, o que é a morte, o que existe depois
da morte? É claro que as formulações podem variar, mesmo com
as crianças. Qual não foi o espanto de um pai cujo filho de
6 anos perguntou "por que vocês me fizeram, por que sou
eu e não um outro? "
À procura da filiação: Vincent
Vincent tem apenas 18 anos, é um cigano que aos 5 anos foi
tirado de sua família e passou por várias instituições até
a idade de 9 anos, quando foi acolhido pela escola da vida,
um lugar de vida que acolhe casos sociais, fundado por colegas
da Análise Psico-Orgânica. Vicent viveu nesse lugar dos 9
aos 18 anos, co educadores e psicoterapeutas.Ele aprendeu
a fazer telhados. Agora eles está na idade de deixar a instituição
e de aprender a viver sozinho. Foi nessa perspectiva que a
equipe que o acompanha me pediu para recebê-lo em meu grupo
contínuo de terapia que se reúne um fim de semana por mês
e para o qual é necessário um engajamento mínimo de 1 nao.
Para Vincent foi um choque cultural, ele nunca tido ido a
Paris e no grupo havia pessoas de classe média ou alta que
ele não tinha o hábito de frequentar. Quando eu lhe perguntei
por que ele queria fazer esse processo terapêutico, ele me
disse: "porque eu quero ser pai e não quero fazer meus
filhos sofrerem". É raro que um jovem de 18 anos fale
de paternidade, ainda mais não tendo uma relação sólida. Pouco
a pouco ele revelou sua história - abusado sexualmente por
seu pai, ele foi levado para a instituiçào. Vicent, afirmando
seu desejo de ser pai, projetava-se no futuro, dava a si mesmo
uma direção, o que é um pai, o que é um filho, um enorme trabalho
de recuperação está se fazendo, uma transformação que vai
contradizer o "pai faltante, filho marcado."
À procura do amor: Carlos
Carlos é cirurgião, e na primeira entrevista ele falou de
sua dificuldade em amar: "eu sou um deficiente do coração,
dos sentimentos". Ele se relacionava com uma mulher que
o repreendia em sua incapacidade de exprimir seus sentimentos.
Para ele, que era bem sucedido profissionalmente, estava claro
que sua vida só teria sentido se ele fosse capaz de construir
uma relação durável com uma mulher. Eles estão começaram uma
psicoterapia de casal, depois ele experimentou também um caminho
individual.
O sentido da vida no momento da morte: Fernando
Fernando é um homem de 65 anos que me disse, na primeira entrevista,
que ele tinha um câncer de fígado com metástases: "eu
não tenho mais muito tempo de vida e eu gostaria de fazer
parte de seu grupo de terapia". Surpresa por seu pedido,
eu lhe propus um acompanhamento individual. "Sim, mas
além do acompanhamento individual, eu quero participar do
grupo." Eu lhe falei do grupo de palavra para pessoas
com câncer, ou do grupo de oração. "Não, respondeu ele,
eu sou ateu e é num grupo de terapia que eu desejo estar."
"Por que"? Perguntei "Porque eu quero viver
até o fim em relaçào com os outros". Ele havia dado o
sentido, a bola estava no meu campo. Eu iria dizer sim, o
grupo seria bastante sólido para colher Fernando que iria
nos deixar logo? "Está bem" eu disse. Fernando fez
os grupos de setembro, outubro e novembro, e morreu na véspera
do grupo de dezembro, cercado por seus 6 filhos. "viver
bem até o fim em relação com os outros". Este era o sentido
de sua vida. Nós aprendemos muito com ele e recebemos muito
dele.
Conclusão
Eu gostaria de voltar à questão da visão unicista da pessoa
em Análise Psico-Orgânica, e isto não equivale à noção de
facilidade ou de simplicidade.
Cada pessoa terá seu próprio caminho, cada relação terapêutica
é única. Algusn clientes partirão do corpo, da sensação, para
ir para a consciência , outros partirão da palavra, do sentido,
para ir para a sensação. Nesse cruzamento, eles encontram
seu sentimento, que é a qualidade da experiência, e a função
do sentimento permite que eles elaborem seu sistema de valores,
a visão de si mesmos e do mundo, sua ética.
Eu gostaria de concluir citando um grande filósofo francês,
"Emanuel Levinas".
"Meu olhar para o outro é minha visão de Deus".
Eu não sei quantos psicoterapeutas poderiam assumir, encarnar,
viver tais palavras. de qualquer forma, esta seria uma bela
direção para nossa profissão.
Anne Fraisse
Autora
Anne Fraisse: Membro titular e didata do Sindicato Francês
de Psicoterapeutas - Psicoterapeuta e formadora da Escola
Francesa de Análise Psico-Orgânica. Integra o trabalho psicológico
, corporal e espiritual na sua prática e no seu ensino. Autora
do livro "La fontaine de feu" - "A Fonte de
Fogo" (Albin Michel, 1994).
Tradução por Silvana Sacharny: Psicólóga pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Psicoterapeuta Corporal formada
pela Escola Francesa de Análise Psico - Orgânica. Especialização
em Psicologia Clínica pela Universidade Sorbonne - Paris.
Coordenadora do Centro Brasileiro de Análise Psico-Orgânica.
|