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O MITO DA CAVERNA

Havia em um extenso vale, uma caverna; com larga boca de entrada e bastante profunda. Lá dentro, sentados de costa para entrada e voltado para vasta parede de pedras, encontrava-se os homens discutindo sobre os acontecimentos do dia. Olhando-se para a parede, viam-se inúmera imagens que iam e vinham, ao alto e embaixo, movendo-se de estranha maneiras, todas da mesma cor e sem emitir nenhum som. Em meio às conjecturas, uns achavam que era isto, outros que era aquilo, e assim, passavam o dia observando e falando. Cansado desta vida, um dos homens resolveu tomar uma atitude e disse: Não agüento mais. A vida não pode ser só isto. Vou arriscar levantar-me e ir em busca de algo mais. Todos se calaram apavorados. Como disseram, tens coragem de abandonar a vida e enveredar por desconhecidos caminhos, sujeito a morrer, mas vou a procura de algo mais. E assim, diante dos olhares indignados dos demais, levantou e dirigiu-se à porta. A luz intensa ofuscou-lhe os olhos e, por um momento nada viu. Pensou: realmente acho que não existe mais nada. Aos poucos, seus olhos acostumaram-se a claridade e observou pasmado, alguns homens e mulheres iguais a ele, que iam e vinham, carregando cestos, cartazes, animais e provocando assim, por causa do sol forte, as sombras que eram projetadas no fundo da caverna onde vivera até então. Seu coração disparou e ele disse: Meu Deus, vivemos até agora achando que as sombras eram a realidade. Perguntou ao passante onde se pode chegar? Ao que lhe responderam: Não sabemos. Jamais saímos deste pedaço pois tememos afastar-nos demais e nos perdemos uns dos outros. Mas cremos que não existe mais nada alem de nós. Este homem, animado pela sua própria coragem em ousar sair da caverna, pensou: Por que não arriscar mais um pouco? Por que não ousar encontrar a verdadeira Realidade? E começou a caminhar. Após algumas horas, no alto de uma colina, teve uma visão mais deslumbrante de sua vida. Lá embaixo, a seus pés, uma enorme cidade, vales e colinas, plantações e flores multicoloridas, pessoas trabalhando, rindo, divertindo-se, rios e cascatas de tamanho esplendor que o deixaram sem voz e com lágrimas nos olhos. Penso: Meu Deus, que maravilhoso mundo eu descobri. Que bom ter tido a coragem de tentar.

E, assim iniciou sua caminhada em direção ao vale. De repente parou e pensou: Vou voltar.
Não é justo que não transmita aos outros a minha descoberta e os deixe na ilusão por mais tempo. E assim o fez. Ao voltar, entrou na caverna, relatou tudo o que vira. A maioria o tachou de louco e visionário. "Viram como quem sai daqui enlouquece? Dois ou três, porém, resolveram se arriscar e, apesar do protesto dos demais, seguiram para fora com o primeiro, Na saída, mais um resolveu buscar um espaço maior e, assim, foram em um pequeno grupo, de encontro a uma nova vida e novas oportunidades"...
Podemos verificar, através desta história ocorrida há cerca de 400 anos a.C., o fato que a Verdade é uma só, embora vista de tantas maneiras diferentes.

Este é o resumo de um diálogo entre Platão e Sócrates e os demais alunos que o ouviam naquele dia. Platão, filosofo grego, nascido em Atenas, foi discípulo de Sócrates e Mestre de Aristóteles, cuja doutrina exerceu enorme influência em toda a filosofia ocidental, Teve como obra mais importante, "A República", onde concluiu "há, pois, o mundo das idéias e o mundo das aparências. Quem não percebe isto, vive como que numa caverna, onde o Conhecimento se faz por meio de sombras..."

In: Livro Sétimo de "A republica de Platão"