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Uma
breve visão sobre o Budismo
O Budismo
tal como é normalmente conhecido, surgiu na Índia
como uma filosofia de protesto há cerca de 2.600 anos atrás.
Nasceu como uma escola que reconhecia a decadência do então
chamado Bramanismo, com as suas castas rígidas, sacrifícios,
sacerdotes profissionais e rituais, cujo sentido havia sido perdido.
Nesse mesmo período, nascia na Índia o Jainismo e
o materialismo histórico chamado Carvaka, que veio a ser
a semente de onde viria a nascer no século XIX o comunismo
e o ateísmo.
Historicamente,
portanto, o Budismo está ligado à figura do Príncipe
Sidharta Gautama, do clã dos Sakyas, um pequeno território
governado pela família dos Sakyas, na região do atual
Nepal, fronteira com a Índia. Sidharta Gautama iria tornar-se,
mais tarde, um Buda um iluminado que passou a ser também
conhecido como Sakya-muni, ou seja, o sábio da família
Sakya.
A cronologia
hindu afirma que o nascimento do futuro Buda ocorreu em uma terça-feira
do mês de maio do ano 2.478 de Kali Yuga o que corresponde
ao ano de 623 a.C. O acontecimento é festejado em grande
parte do mundo budista na noite da lua cheia de maio (Wesak ou Vaisakh).
Ele
nasceu no pequeno reino dos Sakyas, situado na fronteira da Índia
com o atual Nepal. o ponto exato foi o Jardim de Lumbini, localizado
na capital, Kapilavastu, cerca de 160 km a nordeste da cidade de
Varanasi (antigamente Benares) e a 60 km dos majestosos Himalaias.
Sidharta Gautama era filho de Dushodana, que pertencia ao clã
dos guerreiros Sakyas. A criança recebeu o nome de Sidharta,
sendo Gautama o sobrenome da família, sobrenome que ainda
hoje é usado na Índia. O título mais comum
aplicado a Sidharta é o de Buda, que quer dizer o iluminado,
o desperto, aquele que atingiu Bodhi (a iluminação
suprema). Da mesma forma, Cristo é também um nome
genérico que significa o "ungido".
Sidharta
vivia rodeado de todo luxo e conforto. Conta-se que possuía
três palácios: um para a estação quente,
outro para o inverno, e um para a época das chuvas. O velho
rei Sudhodana tentava, por todos os meios, evitar a previsão
de um vidente, que por ocasião do nascimento de Sidharta,
dissera que ele abandonaria toda a riqueza e partiria em busca da
iluminação. Desse modo, o Rei procurava impedir que
o coração sensível do jovem fosse atingido
pela triste realidade do mundo.
Era
virtualmente um prisioneiro dentro dos seus suntuosos palácios
e parques, e vivia cercado de fontes, relvados, flores, música
constante e belas dançarinas.
Somente
jovens podiam se aproximar do príncipe a fim de que ele continuasse
iludido sobre a realidade da vida. Quando demonstrava vontade de
ir até Kapilavastu, o Rajá Sudhodana mandava pintar
todas as casas das ruas onde passaria o séquito do príncipe.
Engalanava as casas, ordenava o povo que vestisse roupas novas e
afastava todos os velhos e doentes. Certa vez, iludindo a vigilância
paterna, Sidharta sai disfarçado, com o seu fiel escudeiro
Channa, para ir até a cidade. É clássico no
Budismo a descrição desse passeio e do choque produzido
no jovem príncipe quando viu a realidade no seu trajeto,
encontrando um velho alquebrado, um doente cheio de pústulas
e coberto de moscas, um cadáver e um saniasi com seu hábito
amarelo. Esta é a forma poética com que é apresentada
a insatisfação do príncipe. O seu desalento
diante da vida fútil e sem sentido que era obrigado a levar.
Retorna ao palácio cabisbaixo, cheio de sofrimento e angústia.
Contempla então o seu palácio e os jardins adormecidos,
banhados pelo luar. E vê as formosas bailarinas vencidas pelo
sono, com as bocas semi-abertas e as vestes em desalinho, parecendo
corpos sem vida. Em torno de si, só vê o transitório,
o inútil. Chama então o seu fiel escudeiro Channa
e manda arriar o seu belo cavalo Kantakha. Aproxima-se de sua esposa
adormecida, que tem nos braços o filho Rahula, e contempla-os
pela última vez. Sente o desejo de afagá-los, mas
receia que acordem. Então, resolve partir.
O corte
dos cabelos é um dos episódios mais representados
na arte budista. Encontra-se esculpida na rocha em vários
locais, inclusive existe uma magnífica escultura em Sanchi.
Após se despedir de seu fiel escudeiro Channa e de seu cavalo
Kantakha, o Príncipe Sidharta dirige-se para Rajagaha, capital
de Magadha, hoje Rajgir, ao sul de Patna. Nessa época, ali
reinava o Rei Bimbisara, que ao saber da sua presença vem
ao seu encontro com toda a sua corte. O Rei Bimbisara tenta em vão
convencer Sidharta a permanecer em Magadha. Gautama então
prossegue sua jornada em direção a Uruvela, uma localidade
próxima de Bodhi-Gaya. Nas florestas dessa região
viviam dois eremitas - Alara Kalama e Udaka - de quem se faz discípulo.
Insatisfeito com os ensinamentos, pouco depois, embrenha-se ainda
mais na densa floresta e ali, em companhia de cinco outros eremitas,
inicia uma série de mortificações e jejuns,
a tal ponto que mais tarde chegou a confessar que "quando tocava
o ventre sentia a espinha dorsal, e quando esfregava as pemas todos
os pelos caiam". Sua fraqueza era tanta que, certo dia, ao
banhar-se no rio Nairanja, desmaiou, só se salvando com a
ajuda de uma camponesa chamada Sujata, que passava pelas proximidades
e que o alimentou com algumas gotas de leite. Reanimado, chega a
conclusão da inutilidade do rigoroso método de mortificação
física a que se submetera durante seis longos anos. Um poema
nos fala a esse respeito da seguinte forma:
"A
verdade está dentro de nós. Não surge das coisas
externas, mesmo que assim acreditemos. Há um centro interno
onde a verdade habita em sua plenitude. Mas as espessas camadas
da carne grosseira impedem o seu esplendor. A pervertida rede carnal
frusta, emaranha e faz tudo parecer errôneo. Para alcançar
a sabedoria, o indivíduo tem que abrir de dentro para fora,
um caminho. Por onde o aprisionado esplendor possa passar. Ao invés
de tentar absorver a luz, supondo que ela se encontre além
de si mesmo."
Despede-se
dos companheiros, que o julgam um fraco, e parte para Bodhi Gaya.
Lá sentado à sombra da árvore Bo, voltado para
o leste, com o firme propósito de só se levantar após
alcançar a auto-iluminação, a sabedoria suprema
e absoluta, permanece durante sete semanas à mercê
das tentações de Mara (o gênio do mal), que
lhe oferece toda sorte de riquezas. Mantém-se, entretanto,
imperturbável. O sutra 36 do Digha Nikaya relata os pensamentos
que se apresentaram ao espírito do grande ser: "Em verdade,
este mundo se resume numa grande miséria. O ser humano nasce,
envelhece, morre e torna a renascer. Ninguém conhece o meio
para fugir a isso." A seguir, um pensamento ocorre na mente
do Boddhisatva (o futuro Buda): "Qual é a origem da
dor?" E assim, de etapa em etapa, aprofunda-se cada vez mais,
chegando finalmente a sintonizar-se com aquele foco interno que,
um dia, irá nos dar a onisciência. O acontecimento,
segundo a tradição, ocorreu no ano 215 de Kali Yuga,
no plenilúnio do mês de maio. Tinha então Sidharta
Gautama 35 anos, quando se transformou no iluminado, no Buda. Após
atingir o Nirvana, o Buda hesita em difundir sua experiência
entre os homens. Poderiam eles compreender a lei do karma (de causa
e efeito)? Poderiam libertar-se da idéia animista da existência
de uma alma, e atingir a verdadeira natureza do ser? Poderiam prescindir
do auxílio de sacerdotes e rituais para, por fim, atingirem
a salvação, acreditando apenas em si mesmos? Perceberiam
o verdadeiro significado do Nirvana? Resolve, então, depois
do apelo feito pelo próprio deus Brahma, pregar a mensagem
entre os homens. Diz o seguinte:
"Irei
entre as nações, E abrirei as portas que conduzem
à imortalidade, Deixai que ouça todo aquele que tem
ouvidos, Para que conquiste a nobre senda da salvação."
Firme
na sua resolução, dirige-se então à
cidade de Varanasi, onde reencontra os cinco ascetas que foram seus
antigos companheiros nas florestas de Uruvela. No parque das Gazelas
faz o seu primeiro e clássico sermão. Nele formula
as quatro verdades e aponta a Senda Óctupla, que conduz a
libertação final e é aceita por todas as escolas
de Budismo.
As
quatro nobres verdades são: Dukka - a dor; Samadoya
a origem da dor; Nirodha - cessação da dor; Marga
o caminho.
Murillo
Nunes de Azevedo

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