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Dimensões
da Espiritualidade
Seres
humanos não são produzidos por máquinas. Somos
mais do que apenas matéria; temos sentimento e experiência.
Por essa razão, somente conforto material não é
suficiente. Necessitamos algo mais profundo, o que usualmente chamo
de afeição humana, ou compaixão. Com afeição
humana, ou compaixão, todas as vantagens materiais que temos
à nossa disposição podem ser muito construtivas
e produzir bons resultados. Contudo, sem afeição humana,
somente vantagens materiais não nos proporcionarão
satisfação, nem produzirão qualquer medida
de paz mental ou felicidade. De fato, vantagens materiais sem afeição
humana podem até mesmo criar problemas adicionais. Portanto,
afeição humana, ou compaixão, é a chave
para a felicidade humana.
O primeiro
nível da espiritualidade, para os seres humanos de todos
os lugares, é a fé em uma das muitas religiões
do mundo. Penso que há um importante papel para cada uma
das principais religiões mundiais, mas para que elas façam
uma contribuição efetiva em benefício da humanidade
do lado religioso, há dois fatores importantes a serem considerados.
O primeiro é que praticantes individuais das várias
religiões isto é, nós mesmos
devem praticar sinceramente. Ensinamentos religiosos devem ser uma
parte integral de nossas vidas; eles não deveriam estar separados
de nossas vidas. Algumas vezes, vamos a uma igreja ou um templo
e rezamos uma prece, ou geramos algum tipo de sentimento espiritual
e, quando saímos, nada daquele sentimento religioso permanece.
Essa não é a forma adequada de praticar. A mensagem
religiosa deve estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos
da nossa religião devem estar presentes em nossas vidas de
forma que, quando realmente precisamos ou pedimos bençãos
ou força interior, mesmo nessas horas esses ensinamentos
estarão lá; eles estarão lá quando passarmos
por dificuldades porque estão constantemente presentes. Somente
quando a religião torna-se uma parte integral de nossas vidas
é que ela pode ser realmente efetiva.
Também
precisamos experienciar mais profundamente os significados e valores
espirituais de nossa própria tradição religiosa
precisamos conhecer esses ensinamentos não só
a nível intelectual, mas também, de forma cada vez
mais profunda, através de nossa própria experiência.
Algumas vezes entendemos diferentes idéias religiosas num
nível muito superficial ou intelectual. Sem um sentimento
profundo, a eficácia da religião torna-se limitada.
Portanto, devemos praticar sinceramente, e a religião deve
tornar-se parte de nossas vidas.
O segundo
fator refere-se mais à interação entre as várias
religiões mundiais. Hoje, por causa da crescente mudança
tecnológica e a natureza da economia mundial, estamos muito
mais dependentes uns dos outros do que antes. Diferentes países
e continentes tornaram-se mais intimamente associados uns com os
outros. Na realidade, a sobrevivência de uma região
do mundo depende da de outras. Portanto, o mundo tornou-se mais
próximo, muito mais interdependente. Como conseqüência,
há mais interação humana. Sob tais circunstâncias,
a idéia de pluralismo entre as religiões mundiais
é muito importante. Em tempos passados, quando as comunidades
viviam separadas uma das outras e as religiões surgiam num
relativo isolamento, a idéia que havia só uma religião
era muito útil. Mas agora a situação mudou,
e as circunstâncias são inteiramente diferentes. Agora
é crucial aceitar o fato de que existem diferentes religiões,
e a fim de desenvolver verdadeiro respeito mútuo entre elas
é essencial aproximar o contato entre as várias religiões.
Esse é o segundo fator que possibilitará as religiões
mundiais serem mais eficazes em beneficiar a humanidade.
Quando
estava no Tibete, eu não tinha contato com pessoas de diferentes
crenças religiosas. Assim, minha atitude em relação
às outras religiões não era muito positiva.
Mas, quando tive a oportunidade de encontrar pessoas de diferentes
crenças e aprender com essa experiência e o contato
pessoal, minha atitude para com as outras religiões mudou.
Compreendi como são úteis para a humanidade e o potencial
contributivo de cada uma para um mundo melhor. Há séculos,
as religiões vêm dando contribuições
maravilhosas para o aprimoramento dos seres humanos, e ainda hoje
há um grande número de seguidores do cristianismo,
islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo e assim por
diante. Milhões de pessoas estão se beneficiando de
todas essas religiões.
Para
dar um exemplo do valor do encontro de diferentes crenças,
meus encontros com o falecido Thomas Merton fizeram-me perceber
que bonita, maravilhosa pessoa ele era. Noutra ocasião, encontrei-me
com um monge católico que viveu vários anos como eremita
numa montanha bem atrás do mosteiro de Montserrat, na Espanha.
Quando visitei o mosteiro, ele desceu de sua ermida especialmente
para falar comigo. O fato de o inglês dele estar pior do que
o meu me deu mais coragem de falar com ele! Ficamos cara a cara
e perguntei, "Nesses poucos anos, o que você estava fazendo
naquela montanha?" Ele olhou-me e respondeu, "Meditação
na compaixão, no amor". Quando ele disse estas poucas
palavras, entendi a mensagem através dos seus olhos. Realmente
desenvolvi verdadeira admiração por ele e por outros
como ele. Tais experiências ajudaram a confirmar na minha
mente que todas as religiões do mundo têm o potencial
para produzir boas pessoas, a despeito das suas diferenças
de filosofia e doutrina. Cada tradição religiosa tem
sua própria maravilhosa mensagem a transmitir.
Do
ponto de vista do budismo, por exemplo, o conceito de um criador
é ilógico. É difícil para os budistas
entenderem esse conceito por causa do modo que eles analisam a causalidade.
Contudo, este não é o lugar para discutir questões
filosóficas. O ponto importante aqui é que para as
pessoas que seguem esses ensinamentos nos quais a crença
básica está num criador, esta abordagem é eficaz.
De acordo com essas tradições, o ser humano individual
é criado por Deus. Além disso, como recentemente aprendi
de um dos meus amigos cristãos, eles não aceitam a
teoria do renascimento, e assim, não aceitam vidas passadas
ou futuras. Acreditam somente nesta vida. Contudo, eles mantêm
que esta vida é criada por Deus, pelo criador, e esta idéia
desenvolve neles um sentimento de intimidade com Deus. Seu ensinamento
mais importante é que, como estamos aqui por desejo de Deus,
nosso futuro depende do criador, e porque o criador é considerado
supremo e sagrado, devemos amar a Deus, o criador.
O que
segue-se a isso é o ensinamento que deveríamos amar
nossos semelhantes esta é a mensagem principal aqui.
O raciocínio é que se amamos a Deus, devemos amar
nossos semelhantes porque eles, como nós, foram criados por
Deus. O futuro deles, como o nosso, depende do criador, portanto,
sua situação é igual a nossa. Logo, a crença
das pessoas que dizem "Ame a Deus" mas não mostram
amor verdadeiro para seus semelhantes é questionável.
A pessoa que acredita em Deus e no amor a Deus, deve demonstrar
a sinceridade de seu amor a Deus através do amor dirigido
aos semelhantes. Essa abordagem é muito poderosa, não
é?
Assim,
se examinarmos cada religião por vários ângulos
e da mesma maneira não apenas da nossa posição
filosófica mas de vários pontos de vista não
pode haver dúvida de que todas as grandes religiões
têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isto é
óbvio. Através de um contato próximo com pessoas
de outras fés, é possível desenvolver uma atitude
aberta e de respeito mútuo em relação a outras
religiões. Proximidade com diferentes religiões ajuda-me
a aprender novas idéias, novas práticas, e novos métodos
ou técnicas que posso incorporar à minha própria
prática. Da mesma forma, alguns de meus irmãos e irmãs
cristãos adotaram certos métodos budistas, como a
prática da mente unifocada e as técnicas de desenvolvimento
da tolerância, da compaixão e do amor. O benefício
é enorme quando praticantes de diferentes religiões
se unem para esse tipo de intercâmbio. Além de desenvolverem
a harmonia entre si, ganham outras benesses.
Políticos
e líderes de nações falam com freqüência
em "coexistência" e "ação conjunta".
Por que não nós, religiosos, também? Acho que
é chegada a hora. Em Assis, em 1987, por exemplo, líderes
e representantes de várias religiões mundiais se encontraram
para orar juntos, embora eu não saiba ao certo se orar é
a palavra exata para descrever com acuidade a prática de
todas aquelas religiões. Em todo caso, o que importa é
que os representantes de várias religiões se reuniram
e, conforme suas próprias crenças, rezaram. Isso já
está acontecendo e é, creio eu, muito positivo. No
entanto, ainda precisamos fazer mais esforços para aumentar
a harmonia e a proximidade entre as religiões mundiais, pois
sem um tal esforço continuaremos a vivenciar todos esses
problemas que dividem a humanidade. Se a religião fosse o
único remédio para reduzir o conflito humano, mas
se este mesmo remédio se tornasse outra forma de conflito,
seria um desastre. Hoje, como no passado, ocorrem conflitos em nome
da religião por causa de diferenças religiosas, e
acho isso muito triste. Mas, como disse antes, se pensarmos aberta
e profundamente compreenderemos que a situação atual
é inteiramente diferente do passado. Não estamos mais
isolados, mas somos interdependentes. Hoje, portanto, é muito
importante entender que um relacionamento íntimo entre as
várias religiões é essencial, para que diferentes
grupos religiosos possam trabalhar juntos e realizar um esforço
comum para o benefício da humanidade. Assim, sinceridade
e fé na prática religiosa por um lado, e tolerância
e cooperação religiosa por outro, formam este primeiro
nível do valor da prática espiritual para a humanidade.
O segundo
nível da espiritualidade a compaixão como religião
universal é mais importante que o primeiro porque,
não importa quão maravilhosa uma religião possa
ser, ainda assim ela é aceita somente por um número
limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou seis bilhões
de seres humanos em nosso planeta provavelmente não pratica
religião alguma. De acordo com o seu ambiente familiar, eles
poderiam se identificar como pertencentes a um ou outro grupo religioso
"eu sou hindu", "eu sou budista", "eu
sou cristão" , mas realmente a maioria desses
indivíduos não é necessariamente praticante
de nenhuma crença religiosa. Isto está correto: seguir
uma religião ou não é um direito da pessoa
como indivíduo. Todos os grandes mestres, como Buda, Mahavira,
Jesus Cristo e Maomé falharam em tornar toda a população
humana voltada para a espiritualidade. O fato é que ninguém
pode fazer iss Se esses não-crentes são chamados de
ateus não importa. De fato, para alguns estudiosos ocidentais
os budistas também são ateístas, pois não
aceitam um criador. Por isso, às vezes, ao descrever estes
não-crentes, adiciono a palavra "extremo" e os
chamo de não-crentes extremos. Eles não apenas são
não-crentes mas também são extremos, presos
ao ponto-de-vista de que a espiritualidade não tem valor.
Contudo, devemos lembrar que essas pessoas também são
uma parte da humanidade e também têm, como todos os
seres humanos, o desejo de viver uma vida pacífica e feliz.
Este é o ponto importante.
Acredito
que não há problemas em permanecer não-crente,
mas enquanto você fizer parte da humanidade, enquanto você
for um ser humano, você precisa de afeição humana,
compaixão humana. Este é realmente o ensinamento essencial
de todas as tradições religiosas: o ponto crucial
é a compaixão ou afeição humana. Sem
afeição humana, mesmo crenças religiosas podem
tornar-se destrutivas. Assim, a essência, mesmo na religião,
é um bom coração. Considero que a afeição
humana, ou compaixão, é a religião universal.
Crente ou não-crente, todos necessitam de afeição
humana e compaixão, porque compaixão nos dá
força interior, esperança e paz mental. Assim, ela
é indispensável para todos.
Examinemos,
por exemplo, a utilidade de um bom coração na vida
cotidiana. Se estamos de bom humor quando nos levantamos de manhã,
com um sentimento caloroso no coração, automaticamente
está aberta a nossa porta interior para aquele dia. Mesmo
se uma pessoa pouco amistosa aparece, não nos perturbamos,
e podemos até dizer a ela alguma coisa simpática.
Mas num dia de humor menos positivo, quando nos sentimos irritados,
nossa porta interior se fecha automaticamente. O resultado é
que, mesmo se encontramos nosso melhor amigo, ficamos pouco à
vontade e tensos. Tais situações mostram a diferença
que nossa atitude interior faz nas experiências do dia-a-dia.
Precisamos, pois, a fim de criar uma atmosfera agradável
em nós mesmos, nas nossas famílias e nossas comunidades,
compreender que a fonte desse bem-estar está dentro do indivíduo,
dentro de cada um de nós um bom coração,
compaixão humana, amor.
Uma
vez criada uma atmosfera positiva e amistosa, o medo e a insegurança
automaticamente diminuem. Assim, podemos facilmente fazer mais amigos
e criar mais sorrisos. Afinal de contas, somos animais sociais.
Sem amizade humana, sem o sorriso humano, nossa vida torna-se miserável.
O sentimento de solidão fica insuportável. É
a lei natural, isto é, pela lei natural dependemos dos outros
para viver. Se, sob certas circunstâncias, por algo estar
errado dentro de nós, nossa atitude para com nossos semelhantes,
de quem dependemos, se tornar hostil, como poderemos esperar paz
de espírito e uma vida feliz? De acordo com a natureza humana
básica, ou lei natural, a afeição compaixão
é a chave da felicidade. Segundo a medicina contemporânea,
um estado mental positivo, ou paz mental, também é
benéfico para a saúde física. Logo, mesmo do
ponto de vista de nossa saúde, paz e calma mental são
cada vez mais importantes. Isso mostra que o próprio corpo
físico aprecia e responde à afeição
humana, à humana paz de espírito.
Se
olharmos para a natureza humana básica, veremos que nossa
natureza é mais dócil do que agressiva. Se examinarmos
vários animais, notaremos que aqueles de natureza mais pacífica
têm uma estrutura corporal correspondente, enquanto os predadores
têm uma estrutura corporal desenvolvida de acordo com a natureza
deles. Compare um tigre com um veado. Há uma grande diferença
de estrutura física entre eles. Quando comparamos o nosso
próprio corpo com os deles, vemos que somos mais parecidos
com os veados e coelhos do que com os tigres. Até os nossos
dentes são mais parecidos com os deles, não são?
Bem diferentes dos do tigre. Nossas unhas são outro bom exemplo
eu não sou capaz de pegar nem um rato, só com
as minhas unhas humanas. Claro, a inteligência humana nos
habilita a criar ferramentas e métodos sem os quais seria
difícil fazer muito do que fazemos. Como vêem, devido
ao nosso estado físico, pertencemos à categoria dos
animais dóceis. Acho que é nossa natureza humana fundamental
que se mostra em nossa estrutura física básica.
Diante
da situação global atual, a cooperação
é essencial, especialmente em campos como economia e educação.
O conceito de que diferenças são importantes está
agora mais ou menos ultrapassado, como demonstra o movimento por
uma Europa Ocidental unificada. Acho que esse movimento é
verdadeiramente maravilhoso e chega em boa hora. Ainda assim, esse
trabalho entre as nações não aconteceu por
causa de compaixão ou fé religiosa, mas por necessidade.
Há uma tendência crescente em direção
da conscientização global. Nas atuais circunstâncias,
um relacionamento mais íntimo com os outros tornou-se um
elemento da nossa própria sobrevivência. Portanto,
o conceito de responsabilidade universal baseado na compaixão
e num senso de irmandade é essencial. O mundo está
cheio de conflitos por causa de ideologia, de religião
ou até entre famílias baseados em alguém
querendo uma coisa e outra pessoa querendo outra coisa. Assim, se
examinarmos as fontes de todos esses conflitos, descobriremos muitas
fontes, muitas causas, até dentro de nós mesmos.
Nesse
meio tempo, todavia, temos o potencial e a capacidade de unirmo-nos
harmoniosamente. Tudo mais é relativo. Embora haja várias
causas de conflito, existem ao mesmo tempo muitas causas para união
e harmonia. Chegou a hora de pôr mais ênfase na união.
Também aqui, há que haver afeição humana.
Por exemplo, você pode ter uma opinião ideológica
ou religiosa diferente da de outra pessoa. Se você respeitar
o direito da outra pessoa e mostrar sinceramente uma atitude compassiva
para com ela, então não importa se a idéia
dela lhe serve, isso é secundário. Enquanto a outra
pessoa acreditar, enquanto puder se beneficiar de tal ponto de vista,
ela estará em seu absoluto direito. Então, precisamos
respeitar e aceitar o fato de que existem diferentes pontos de vista.
No campo da economia dá-se o mesmo: nossos competidores devem
obter algum lucro, pois eles também precisam sobreviver.
Quando temos uma visão mais ampla baseada na compaixão,
creio que tudo se torna mais fácil. Compaixão, mais
uma vez, é o fator-chave.
Os
conflitos mundiais estão hoje consideravelmente menos tensos.
Felizmente, agora podemos pensar e falar seriamente sobre desmilitarização.
Cinco anos atrás isso seria difícil, mas hoje a Guerra
Fria entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética
acabou. Aos meus amigos americanos eu sempre digo: A força
de vocês não vem das armas nucleares, mas dos nobres
ideais de democracia e liberdade dos seus antepassados. Quando estive
nos Estados Unidos em 1991, pude encontrar o ex-presidente George
Bush. Na ocasião, falávamos sobre a nova ordem mundial
e eu lhe disse: Uma nova ordem mundial com compaixão é
ótimo. Sem compaixão, não tenho certeza.
Creio
que é um bom momento para pensarmos e falarmos sobre desmilitarização.
Já há sinais de redução armamentícia
e, pela primeira vez, de desnuclearização. Passo a
passo, vamos vendo uma diminuição de armas. Penso
que nossa meta deveria ser a de livrar o mundo nosso pequeno
planeta s das armas. Isso não quer dizer, porém, que
devamos abolir todo tipo de armas. Talvez seja preciso guardar algumas,
pois há sempre algumas pessoas e grupos criando confusão
entre nós. Por precaução, e para nos resguardarmos
desses focos, poderíamos criar um sistema internacional de
forças policiais monitoradas regionalmente, que não
pertençam a nenhum país mas sejam controladas coletivamente
e supervisionadas por uma organização internacional,
como as Nações Unidas. Sem armas disponíveis,
não haveria perigo de conflito militar entre as nações,
nem haveria guerras civis.
A guerra
continua sendo, para nossa tristeza, parte da história humana,
mas acho que chegou a hora de mudar os conceitos que levam à
guerra. Certas pessoas acham gloriosa a guerra, e que através
dela podem se tornar heróis. Essa atitude comum em relação
à guerra é muito errada. Um entrevistador me disse,
um desses dias, que os ocidentais têm muito medo da morte,
mas que os orientais a temem pouco. Eu lhe respondi, em tom de brincadeira,
que para a mentalidade ocidental, a guerra e a instituição
militar parecem extremamente importantes. Guerra significa morte
provocada, e não por causas naturais. Assim, são
vocês, ocidentais, que não temem a morte, porque gostam
tanto da guerra. Nós, orientais, principalmente nós,
tibetanos, não podemos nem pensar em guerra; lutar, para
nós, está fora de cogitação porque o
resultado inevitável da guerra é o desastre: morte,
ferimentos e miséria. Portanto, o conceito de guerra para
nós é extremamente negativo. Isso quer dizer que,
na realidade, temos mais medo da morte do que vocês, você
não acha?
Infelizmente,
alguns fatores fazem que nossas idéias sobre a guerra sejam
muito incorretas. É hora, portanto, de pensar seriamente
sobre desmilitarização. Eu senti isso profundamente,
durante e depois da crise do Golfo Pérsico. Claro, todos
culparam Sadam Hussein, e não há dúvida de
que Sadam Hussein é negativo ele errou de muitas maneiras.
Afinal, ele é um ditador, e ditadores são obviamente
negativos. No entanto, sem sua organização militar,
sem suas armas, Hussein não seria aquele tipo de ditador.
Quem lhe forneceu as armas? Os fornecedores também têm
responsabilidade. Alguns países ocidentais lhe forneceram
armas sem medir as conseqüências.
Pensar
apenas em dinheiro, em lucrar vendendo armas, é realmente
horrível. Certa vez, encontrei uma francesa que passara muitos
anos em Beirute, no Líbano. Ela me disse, com grande tristeza,
que durante a crise em Beirute havia gente de um lado da cidade
ganhando dinheiro com a venda de armas, enquanto do outro lado,
no mesmo dia, havia gente inocente sendo morta pelas mesmas armas.
Da mesma forma, de um lado do planeta há pessoas vivendo
suntuosamente com o lucro auferido da venda de armas, enquanto pessoas
inocentes morrem do outro lado do planeta, vítimas daquelas
balas sofisticadas. O primeiro passo, portanto, é parar a
venda de armas. às vezes eu brinco com meus amigos suecos:
Vocês são mesmo maravilhosos. Mantiveram a neutralidade
durante o último conflito e sempre consideram a importância
dos direitos humanos e da paz mundial. ótimo. Mas, nesse
meio tempo, estão vendendo muitas armas. Há uma pequena
contradição aí, não há?
Assim,
desde a crise do Golfo Pérsico, prometi a mim mesmo que pelo
resto da minha vida contribuirei para avançar a idéia
da desmilitarização. No que diz respeito ao meu país,
já resolvi que, futuramente, o Tibete deverá ser uma
zona totalmente desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a desmilitarização
uma realidade, o fator chave é a compaixão.
Gostaria
de concluir explicando melhor o significado de compaixão,
que freqüentemente é mal entendido. Compaixão
verdadeira não está baseada em nossas próprias
projeções e expectativas, mas sim nos direitos do
outro: independentemente da outra pessoa ser um amigo íntimo
ou um inimigo, contanto que ela deseje paz e felicidade e deseje
superar o sofrimento, então, baseado nisso, desenvolvemos
respeito verdadeiro para com seus problemas. Isso é compaixão
verdadeira.
Em
geral, chamamos qualquer preocupação com um amigo
próximo de compaixão. Isso não é compaixão,
é apego. Nem casamentos duram por apego, embora o apego geralmente
esteja presente. Eles duram porque também há compaixão.
Se os casamentos duram pouco, é por perda de compaixão;
só há apego emocional baseado em projeção
e expectativa. Quando o único vínculo entre amigos
íntimos é o apego, mesmo uma questão menor
pode causar uma mudança nas projeções. Assim
que nossa projeção muda, o apego desaparece
porque o apego estava baseado unicamente na projeção
e expectativa.
É
possível ter compaixão sem apego e similarmente,
ter cólera sem ódio. Portanto, precisamos esclarecer
as diferenças entre compaixão e apego, e entre cólera
e ódio. Tal clareza é útil em nossa vida diária
e em nossos esforços para a paz mundial. Considero esses
valores espirituais como básicos para a felicidade de todos
os seres humanos, tanto do crente quanto do não crente.
Ensinamento
dado em Melbourne, Austrália, no National Tennis Centre,
em 4 de maio de 1992 e publicado em Dimensions of Spirituality,
Wisdom Publicaions, 1995. Tradução de Bruno D'Avanzo
do Centro de Estudos Budistas Paramitta (Curitiba - PR), em sua
visita ao CEBB em julho 1996, e de José Fonseca do CEB-Bodisatva
(Porto Alegre - RS).

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